O mito da motivação: por que esperar a vontade chegar é o seu maior erro

Existe uma mentira muito bem contada de que, para fazer algo grandioso ou difícil, você precisa estar inspirado. Você acorda, espera bater aquela vontade incontrolável de ir para a academia ou de adiantar o trabalho, e… nada acontece. Aí você pensa: “Hoje não é o meu dia, amanhã eu tento de novo”.
A verdade nua e crua é que a motivação é um sentimento. E sentimentos são passageiros. Eles mudam se você dormiu mal, se está com fome ou se o dia está nublado. Construir a sua vida baseada na motivação é como tentar construir uma casa em cima da areia.
Se a motivação vai e vem, o que sustenta a ação? O barco e os remos
Imagine que você está em um barco tentando atravessar um lago. A motivação é o vento batendo nas velas. É maravilhoso quando o vento sopra a seu favor: o barco desliza sem que você precise fazer força. Mas e quando o vento para? A maioria das pessoas cruza os braços e espera a ventania voltar.
A disciplina são os remos. Remar dá calo na mão, cansa e exige esforço contínuo. Mas são os remos que garantem que você vai chegar à outra margem, independentemente de como o clima está hoje.
O cérebro adora rotinas porque elas poupam energia. Quando você transforma o ato de “remar” em um hábito, o esforço diminui. Aristóteles resumiu isso perfeitamente há mais de dois mil anos: “Nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.”
O que a ciência diz sobre a vontade
Uma linha de pesquisa ajuda a entender por que esperar a vontade costuma dar errado. O psicólogo Peter Gollwitzer estudou o que acontece quando a pessoa troca o “eu quero fazer” por um plano bem concreto, do tipo “quando eu chegar em casa, antes de abrir o celular, coloco a roupa de treino”. Ao reunir dezenas de estudos sobre esse tipo de plano, ele e o colega Paschal Sheeran encontraram um efeito consistente: quem decide antes o quando e o onde cumpre bem mais o que se propôs.1 O plano faz o papel que a gente costuma esperar da motivação, só que sem depender do humor do dia.
E existe ainda uma pista curiosa sobre a ordem das coisas. Pesquisas sobre hábitos mostram que, com a repetição, a ação passa a ser puxada pelo contexto (o horário, o lugar, o que veio antes) e cada vez menos pela vontade do momento.2 É por isso que quem treina há anos não acorda pensando se está a fim. O barco já sabe o caminho.
Como agir sem vontade? Apenas comece a remar
Você não precisa ter vontade de fazer algo para ir lá e fazer. A ação muitas vezes vem antes do sentimento. Se você começar a agir, mesmo sem vontade, a motivação costuma aparecer no meio do caminho para te dar um empurrão.
Na prática, a primeira remada pode ser bem menor do que você imagina. Em vez de “vou treinar uma hora”, vale combinar com você mesmo que vai só colocar o tênis e sair na porta. Em vez de “vou escrever o relatório”, abrir o arquivo e escrever a primeira frase. Parece pouco, e é de propósito: o objetivo dessa remada não é atravessar o lago, é tirar o barco do lugar. Na maior parte das vezes, depois que o barco começa a andar, continuar custa bem menos do que começar.
Pare de olhar para o céu esperando o vento perfeito. Pegue os remos e faça o que precisa ser feito. O seu “eu” do futuro vai agradecer por cada remada de hoje.
Mais importante que estar motivado é a seguinte reflexão: você já remou para onde quer ir hoje?
Para não largar os remos no meio do lago, separamos mais três leituras:
- Planejar é fácil, o difícil é tirar o plano da gaveta, e aqui está a regra para executar o que você planejou.
- O seu eu do futuro não é um super-herói, por isso cada tijolo colocado hoje vale tanto.
- Remar para três margens ao mesmo tempo é o jeito mais rápido de não chegar a nenhuma. Entenda o mito de fazer tudo.
Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele amigo que está há três anos esperando o “alinhamento dos astros” ou a motivação mágica bater para finalmente começar um projeto ou ir para a academia. Faça um favor para o futuro dele e mande este link. É um jeito elegante de avisar que o vento não vai soprar tão cedo e que já passou da hora de ele pegar os remos.
Footnotes
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Gollwitzer, P. M. & Sheeran, P. (2006). Implementation intentions and goal achievement: A meta-analysis of effects and processes. Advances in Experimental Social Psychology, 38, 69-119. ↩ confira
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Wood, W. & Neal, D. T. (2007). A new look at habits and the habit-goal interface. Psychological Review, 114(4), 843-863. ↩ confira
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