O mito de fazer tudo: por que você termina o dia exausto e sem resultados

A vida moderna nos contou que ser “multitarefa” é uma qualidade incrível. A verdade, nua e crua, é que no fim das contas, multitarefeiros são medíocres em tudo.
Fazer tudo ao mesmo tempo cansa porque o cérebro não faz duas tarefas que exigem atenção de uma vez. Ele pula de uma para a outra, e cada pulo gasta energia e deixa um pedaço da cabeça preso no que ficou para trás. No fim do dia, boa parte do cansaço vem dessas trocas.
Todo mundo tem as mesmas 24 horas no dia. Então, por que algumas pessoas parecem realizar o dobro, enquanto outras terminam o dia completamente exaustas, com a sensação de que não concluíram nada?
Pense no seu foco como um copo cheio com exatos 300 ml de água. Quando você tenta fazer três coisas ao mesmo tempo, como responder um e-mail, ouvir uma reunião e escrever um relatório, é como tentar despejar essa água rapidamente e ao mesmo tempo em três copos menores de 100 ml. O que acontece? A água derrama. Você perde um pouco de líquido a cada mudança rápida de direção. No cérebro, essa “água derramada” é a sua energia e atenção sendo desperdiçadas na transição entre uma tarefa e outra.
O cérebro consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo?
Na prática, o cérebro quase nunca faz duas coisas que exigem atenção ao mesmo tempo. O que ele faz é trocar de uma para outra muito rápido, e cada troca tem um custo. Em experimentos clássicos, os psicólogos Joshua Rubinstein, David Meyer e Jeffrey Evans mediram esse custo: alternar entre tarefas deixava as pessoas mais lentas e com mais erros, e o prejuízo crescia quanto mais complexas eram as tarefas.1 Cada troca é um pouquinho de água no chão.
Mesmo quem se acha bom nisso costuma pagar a conta. Na Universidade Stanford, pesquisadores compararam pessoas que usam várias telas e aplicativos ao mesmo tempo o dia todo com pessoas que fazem isso pouco. Os “multitarefa de carteirinha” se saíram pior em filtrar distrações e em trocar de tarefa, justamente a habilidade que eles imaginavam treinar.2
Existem exceções, mas são raras. Um estudo da Universidade de Utah testou pessoas dirigindo num simulador enquanto resolviam problemas de memória e de matemática. Só cerca de 2,5% conseguiram fazer as duas coisas sem piorar em nenhuma.3 As chances de você, eu e o colega do currículo estarmos nesse grupo são pequenas.
E a tal bateria da força de vontade?
Por muitos anos, foi bem popular a ideia de que a força de vontade funciona como a bateria do celular: você acorda com 100%, e cada esforço para resistir a uma distração drena um pouco. Ela fazia sentido e aparecia em muitos livros. Só que, quando 23 laboratórios de vários países repetiram o experimento que deu origem a essa ideia, com o mesmo método e muito mais participantes, o efeito praticamente não apareceu.4
Isso não quer dizer que o cansaço não exista. Você sente que o fim do dia é mais difícil, e ele é mesmo. A questão é que o desgaste parece vir menos de um tanque que esvazia e mais de como a gente reparte a atenção, de quantas pendências carrega e de quanto descansa. É uma boa notícia, porque essas coisas dá para mudar.
O grande problema de quem tenta fazer tudo ao mesmo tempo é a ilusão de querer equilibrar a vida. O equilíbrio perfeito exige que você dê a mesma atenção para tudo, o que te impede de se comprometer de verdade com qualquer coisa.
Como render mais sem fazer tudo junto? Balancear em vez de equilibrar
Balancear significa assumir uma prioridade. Quando você age segundo a sua prioridade, você intencionalmente tira o peso das outras coisas para focar no que importa. A mágica dos resultados não acontece no centro, tentando segurar todos os pratinhos. Ela acontece nos extremos do seu foco.
Em vez de tentar fazer dez coisas de forma medíocre hoje e espalhar a sua água pela mesa, faça a si mesmo apenas uma pergunta: qual é a única coisa que eu posso fazer hoje que vai tornar todo o restante mais fácil ou até desnecessário? Essa pergunta ficou famosa no livro A Única Coisa, de Gary Keller e Jay Papasan.5
Na prática, isso pode ser bem simples. Escolha essa tarefa antes de abrir o e-mail. Reserve um bloco de tempo só para ela, com as notificações desligadas. E, se surgir outra coisa no meio, anote num papel para resolver depois, em vez de pular de copo em copo.
Encontre essa resposta e despeje toda a sua água ali.
Para despejar a sua água no copo certo, separamos mais três leituras:
- Se a lista nunca acaba, aqui está a regra da única tarefa para executar o que você planejou.
- O celular é especialista em puxar a sua atenção para outro copo, e entenda a armadilha da recompensa rápida.
- Quando a cabeça enche demais, os erros aumentam. Veja como asfaltar a pista do seu cérebro.
Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele colega que coloca “multitarefa” no currículo com orgulho, mas na prática só é especialista em começar dez coisas ao mesmo tempo e terminar o dia sem concluir nenhuma. Mande este texto para ele. É um jeito elegante de avisar que a água dele está derramando para todo lado e que fazer o básico bem feito já seria um excelente avanço.
Footnotes
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Rubinstein, J. S., Meyer, D. E. & Evans, J. E. (2001). Executive control of cognitive processes in task switching. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 27(4), 763-797. ↩ confira
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Ophir, E., Nass, C. & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(37), 15583-15587. ↩ confira
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Watson, J. M. & Strayer, D. L. (2010). Supertaskers: Profiles in extraordinary multitasking ability. Psychonomic Bulletin & Review, 17(4), 479-485. ↩ confira
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Hagger, M. S., Chatzisarantis, N. L. D. et al. (2016). A multilab preregistered replication of the ego-depletion effect. Perspectives on Psychological Science, 11(4), 546-573. ↩ confira
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Keller, G. & Papasan, J. (2013). The One Thing: The Surprisingly Simple Truth Behind Extraordinary Results. Bard Press. ↩ confira
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