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Ponto de Ajuste
Finanças

A sua relação com o dinheiro começou antes do seu primeiro salário

1 de novembro de 2026 · 5 min de leitura · Equipe Ponto de Ajuste

Homem exausto com as mãos na cabeça diante de uma mesa cheia de maços de dinheiro, com balões de pensamento acima dele mostrando algemas, um coração partido, pessoas se afastando e uma nuvem de tempestade
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A sua relação com o dinheiro é o jeito como você pensa, sente e age diante dele. E quase ninguém escolheu essa relação de propósito. Ela foi montada na infância, com as frases que você ouviu à mesa, as cenas que viu em casa e os sustos que a família passou. Por isso duas pessoas com o mesmo salário podem viver vidas financeiras completamente diferentes. O dinheiro que entra é só metade da história; a outra metade é o olhar de quem recebe.

Pense em alguém que passou a vida usando os óculos do avô. O grau foi feito para outros olhos, em outra época. Tudo fica um pouco torto, um pouco borrado, e a pessoa acha que o mundo é assim mesmo. Nunca passou pela cabeça dela que o problema podia estar na lente.

Com o dinheiro acontece algo muito parecido.

Como se forma a nossa relação com o dinheiro?

O escritor T. Harv Eker, autor de Os Segredos da Mente Milionária, chama isso de “modelo de dinheiro”, uma espécie de molde interno que a gente carrega sem perceber.1 Segundo ele, esse molde é feito de três ingredientes.

O primeiro é o que você ouviu. “Dinheiro não dá em árvore.” “Rico é tudo desonesto.” “Isso não é para gente como nós.” Frase repetida muitas vezes na infância vira verdade na vida adulta, mesmo que ninguém lembre quando aprendeu.

O segundo é o que você viu. Se em casa o dinheiro era motivo de briga, é bem possível que hoje você evite olhar o extrato. Se os pais gastavam tudo no dia do pagamento, gastar rápido pode parecer o normal.

O terceiro é o que você viveu. Um despejo, uma falência na família ou um mês em que faltou comida deixam marcas que falam mais alto que qualquer planilha.

A ideia central de Eker é simples: pensamentos viram sentimentos, sentimentos viram ações e ações viram resultados. Se a gente só mexe nos resultados, como cortar gastos ou procurar uma renda extra, mas deixa os pensamentos intactos, a vida financeira acaba voltando para o mesmo lugar, como um elástico.

Por que a gente dá valor demais, ou de menos, ao dinheiro?

Pesquisadores da área de psicologia financeira deram nome a essas crenças: roteiros de dinheiro. São ideias quase automáticas, formadas cedo, que ajudam a prever como a pessoa vai lidar com as contas.2 E elas costumam puxar para dois extremos.

Num lado está quem coloca o dinheiro lá no alto. Para essa pessoa, mais dinheiro resolveria tudo, e o valor dela mesma parece subir e descer junto com o saldo. Vive correndo atrás do próximo aumento e nunca sente que chegou.

No outro lado está quem empurra o dinheiro para longe. Acha feio querer ganhar mais, sente culpa quando sobra e, sem perceber, dá um jeito de gastar o que entrou. Por fora parece desapego, mas muitas vezes é medo.

Os dois estão usando óculos com o grau trocado. Um enxerga o dinheiro grande demais, o outro pequeno demais, e nenhum dos dois consegue ver o dinheiro do tamanho que ele tem.

Qual é o valor certo do dinheiro?

Talvez a pergunta mais honesta seja outra: para que serve o dinheiro na sua vida?

Um estudo grande sobre renda e bem-estar ajuda a enxergar isso com mais calma. Para a maioria das pessoas, ganhar mais continua trazendo mais bem-estar, mesmo em faixas de renda altas. Só que, para quem já vive infeliz por outros motivos, a partir de certo ponto o dinheiro extra quase não muda nada.3 Em outras palavras, dinheiro melhora muito a vida, mas não conserta o que não é feito de dinheiro.

Eker resume isso de um jeito parecido: o dinheiro é extremamente importante nas áreas onde ele funciona, como liberdade, segurança e escolhas, e quase sem importância nas áreas onde ele não funciona, como amor, propósito e paz com quem você é.

Sêneca já dizia algo nessa linha há quase dois mil anos:

“Não é pobre quem tem pouco, mas quem deseja mais.” (Sêneca, Cartas a Lucílio)

Dá para mudar a relação com o dinheiro?

Dá, e o primeiro passo é só perceber que você está de óculos. Muita gente nunca se pergunta de onde vem o aperto no peito ao abrir o aplicativo do banco, ou a vontade de gastar logo depois de receber. Quando a pessoa consegue dizer “isso é a voz da minha mãe” ou “isso é o susto de quando meu pai perdeu o emprego”, a lente já fica um pouco mais nítida.

O segundo passo é trocar o grau aos poucos, olhando os números com calma. Às vezes basta ver quanto um hábito pequeno custa ao longo dos anos para enxergar o dinheiro de outro jeito, e a nossa calculadora de custo de hábitos faz essa conta em um minuto.

Ninguém precisa jogar fora tudo o que aprendeu em casa. Muitas lições continuam boas. A ideia é só conferir, uma a uma, quais ainda servem para os seus olhos de hoje.

Então fica uma pergunta para você levar para a semana. Qual frase sobre dinheiro você mais ouviu quando era criança, e quanto da sua vida financeira de hoje ainda está obedecendo a ela?

Para continuar ajustando o grau dos seus óculos, separamos mais três leituras:

Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele amigo que repete “dinheiro não traz felicidade” toda vez que a fatura do cartão chega, e mesmo assim confere o saldo três vezes por dia. Manda este artigo para ele. Talvez seja a hora de levar os óculos dele para uma revisão.

Footnotes

  1. Eker, T. H. (2006). Os Segredos da Mente Milionária. Rio de Janeiro: Sextante. ↩ confira

  2. Klontz, B., Britt, S. L., Mentzer, J. & Klontz, T. (2011). Money beliefs and financial behaviors: development of the Klontz Money Script Inventory. Journal of Financial Therapy, 2(1). ↩ confira

  3. Killingsworth, M. A., Kahneman, D. & Mellers, B. (2023). Income and emotional well-being: a conflict resolved. Proceedings of the National Academy of Sciences, 120(10), e2208661120. ↩ confira

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