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Mente

Pessoas otimistas são mais felizes? Tudo depende da janela que você escolhe olhar

29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Equipe Ponto de Ajuste

Dois homens sentados em lados opostos de um ônibus: um olha cabisbaixo para a janela escura, o outro sorri olhando a paisagem ensolarada enquanto um carro vermelho passa na estrada
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Se você já se perguntou se pessoas otimistas são mais felizes, a resposta curta é sim. E, de quebra, elas costumam viver mais. Só que o motivo é bem menos mágico do que parece. O otimista não tem uma vida sem problemas, ele apenas aprendeu a prestar atenção em outras partes da paisagem. No fim das contas, tudo começa no lugar onde a gente escolhe colocar os olhos.

Talvez você conheça aquele desenho que virou meme no mundo inteiro: dois rapazes sentados no mesmo ônibus. Um deles olha para a janela do lado da pedra, escura e sem graça, com a cara mais triste do mundo. O outro olha pela janela do lado oposto, onde tem sol, montanha e céu aberto. E sorri de orelha a orelha.1

Os dois pagaram a mesma passagem, estão na mesma estrada e vão descer no mesmo ponto. A única coisa que muda é a janela.

A história dos carros vermelhos

Imagine duas amigas fazendo uma viagem longa de carro. Uma delas é apaixonada por carros vermelhos, daquelas que apontam e comentam cada um que aparece. A outra nunca deu muita bola para isso. No fim do dia, alguém pergunta quantos carros vermelhos passaram pela estrada. A primeira responde na hora: “uns sete, e um deles era lindo”. A segunda pensa, pensa, e não lembra de nenhum.

Os sete carros passaram pelas duas. A estrada era a mesma, a velocidade também. O que mudou foi aquilo que cada uma estava procurando.

O nosso cérebro funciona desse jeito o tempo todo. Ele recebe muito mais informação do que consegue dar conta, então faz uma seleção. E o critério dessa seleção é aquilo que a gente se acostumou a achar importante. O que você procura com frequência vira o que você enxerga com facilidade.

Quem passa o dia à caça do que pode dar errado encontra provas disso em todo canto. Quem treinou o olhar para o que dá certo também encontra, na mesmíssima estrada.

Por que pessoas otimistas vivem mais?

Parece papo de mensagem de bom dia, mas tem pesquisa séria por trás. Um estudo grande acompanhou dezenas de milhares de pessoas por muitos anos. As mais otimistas viviam, em média, entre 11% e 15% mais, e tinham bem mais chance de passar dos 85 anos. E isso continuou valendo mesmo depois de considerar coisas como saúde, renda e hábitos.2

A explicação não tem nada de sobrenatural. Quem acredita que as coisas podem melhorar tende a cuidar mais de si, porque sente que vale a pena. Vai ao médico antes de o problema crescer e se movimenta mais. Também encara as dificuldades em vez de fugir delas, e se recupera mais rápido dos tombos.3 O otimismo funciona como um empurrãozinho diário para fazer o que faz bem.

E a felicidade entra justamente aí. O otimista sofre, perde, se frustra como qualquer pessoa. A diferença é que ele não fica com o rosto colado na janela escura a viagem inteira.

Otimismo e pessimismo: dá para trocar de janela?

A boa notícia é que o otimismo não é só um traço de nascença. Uma parte dele se aprende, do mesmo jeito que a amiga do carro vermelho aprendeu a reparar nos carros: de tanto procurar.

Um experimento simples mostra isso bem. Algumas pessoas passaram semanas anotando coisas pelas quais eram gratas, enquanto outras anotavam os aborrecimentos do dia. Quem olhava para o lado bom terminou se sentindo melhor com a própria vida e mais animado com a semana seguinte. De quebra, passou até a se exercitar mais.4 No fundo, é contar carros vermelhos de propósito, até o cérebro começar a fazer isso sozinho.

Otimismo com os pés no chão

Agora, um cuidado importante. Otimismo não é fingir que a pedra do lado de lá não existe. Quem ignora os problemas está mais para distraído do que para otimista, e a conta costuma chegar depois. Repare que o rapaz feliz do ônibus não pintou a janela escura de amarelo. Ele sabe que ela está ali, só não passou a viagem inteira olhando para ela.

Tem dia em que a janela escura chama mais atenção, e está tudo bem. Quando a cabeça está cheia demais, como contamos no texto sobre a mente que cria problemas que não existem, virar o pescoço para o outro lado dá mais trabalho. Por isso o otimismo é mais um hábito do que um humor: a gente volta para a paisagem boa quantas vezes for preciso.

Existe uma frase atribuída a Marcel Proust que cabe direitinho nessa viagem:

“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.” (Marcel Proust)

Na maioria das vezes, a gente não precisa trocar de ônibus nem de estrada. Precisa só reparar no que já está passando pela janela.

Então fica uma pergunta para levar com você nos próximos dias. Se alguém te perguntasse, no fim desta semana, quantos carros vermelhos passaram pela sua estrada, o que você saberia responder? E o que, de verdade, você tem passado a viagem procurando?

Para continuar a viagem pelo lado da janela com sol, separamos mais três leituras:

Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele amigo que, em qualquer ônibus, dá um jeito de sentar do lado da pedra e passa a viagem reclamando da vista. Manda este artigo para ele. Quem sabe na próxima ele conte pelo menos um carro vermelho.

Footnotes

  1. Ronchi, G. (2013). Às vezes só depende de nós. Charge publicada em genildo.com; o autor conta a história dela em entrevista ao jornal A Gazeta. A cena da capa deste artigo é uma releitura dessa ilustração. ↩ confira

  2. Lee, L. O. et al. (2019). Optimism is associated with exceptional longevity in 2 epidemiological cohorts of men and women. Proceedings of the National Academy of Sciences, 116(37), 18357-18362. ↩ confira

  3. Carver, C. S., Scheier, M. F. & Segerstrom, S. C. (2010). Optimism. Clinical Psychology Review, 30(7), 879-889. ↩ confira

  4. Emmons, R. A. & McCullough, M. E. (2003). Counting blessings versus burdens. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377-389. ↩ confira

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