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Mente

Vale a pena fazer terapia? Uma hora para olhar a própria estátua com calma

5 de novembro de 2026 · 6 min de leitura · Equipe Ponto de Ajuste

Homem parado num ateliê de escultor, observando de perto e com calma os detalhes de uma estátua de mármore inacabada com o próprio rosto, enquanto uma terapeuta acompanha ao lado e pessoas passam apressadas lá fora
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Vale a pena fazer terapia, sim, e não só para quem está no fundo do poço. Quem escreve aqui não é psicólogo, então este texto é o olhar de quem está do lado de fora do consultório. E desse lado dá para enxergar um benefício que pouca gente nomeia: a terapia é um dos raros momentos em que você para de correr e se olha com calma, reparando em detalhes que passam batido no resto da semana.

Uma observação antes de seguir: nada aqui substitui a conversa com um profissional. Se você está passando por um momento difícil, procure ajuda. No Brasil, o CVV atende de graça pelo telefone 188, a qualquer hora.

Como a gente se enxerga no dia a dia?

Pense na estátua de uma praça por onde você passa todo dia. Você sabe que ela está ali, talvez saiba até quem ela homenageia. Mas se alguém pedisse para descrever o rosto, as mãos ou o que está escrito na base, provavelmente você não saberia, porque sempre passa por ela com pressa.

Agora imagine a mesma estátua num museu. Ali a gente desacelera, chega perto, repara na textura da pedra, na veia saltada da mão, no ombro que ficou meio torto. A estátua é a mesma, o que muda é a atenção que a gente dá a ela.

Com a gente mesmo, a vida costuma ser a praça. Entre trabalho, contas, mensagens e compromissos, passamos por nós mesmos correndo, todos os dias. O jeito como reagimos quando alguém discorda, aquela mágoa antiga que muda de assunto sozinha, o motivo real de sempre largar um projeto no meio. Esses detalhes estão ali o tempo todo, só que a gente quase nunca para tempo suficiente para reparar neles.

Todo mundo tem um ponto cego?

Tem, e não é por falta de inteligência. Na década de 1950, dois psicólogos americanos desenharam a chamada janela de Johari, uma forma simples de dividir o que sabemos sobre nós. Uma das partes é o “ponto cego”: coisas que os outros percebem em você, mas que você mesmo não enxerga.

Décadas depois, a pesquisadora Simine Vazire estudou isso com números.1 Ela comparou o que as pessoas diziam de si com a opinião de amigos e desconhecidos. A conclusão é curiosa. Em traços mais internos, como ansiedade, a própria pessoa se conhece melhor. Já em traços que aparecem do lado de fora e mexem com a nossa vaidade, como inteligência e criatividade, a história muda. Nesses, os outros muitas vezes acertam mais do que nós.

Ou seja, tem detalhe da nossa estátua que a gente sozinho, com pressa e de perto demais, simplesmente não vê.

O que a terapia faz, afinal?

Do lado de fora, o que dá para ver é isto: a terapia é uma hora reservada para parar diante da própria estátua e olhar com calma, ao lado de alguém treinado para reparar em detalhes. Essa pessoa não vai dizer o que você deve fazer da vida, mas vai apontar algo que você nunca tinha notado e perguntar “você já reparou nisso?”.

Existe também um efeito que parece pequeno e não é. Num estudo da Universidade da Califórnia, voluntários deitados numa máquina de ressonância viam fotos de rostos com raiva ou medo.2 Quando as pessoas davam nome à emoção que viam, a amígdala, a região do cérebro que funciona como alarme, ficava menos agitada. Colocar em palavras já baixa o volume. Na terapia, você faz isso com as suas próprias emoções, uma sessão por vez.

Terapia funciona mesmo?

Funciona, e a ciência mede isso há bastante tempo. Uma das primeiras grandes revisões do assunto, de 1977, juntou centenas de estudos e concluiu que a pessoa média que fazia terapia ficava melhor do que cerca de 75% das que não faziam.3

Mas, olhando de fora, o que mais chama atenção é o exercício que acontece ali dentro: o autoconhecimento. Durante a semana, a cabeça guarda tudo meio jogado, como uma gaveta em que a gente vai enfiando as coisas com pressa. Uma conversa difícil, uma frustração no trabalho, um medo que ainda nem tem nome. Na sessão, você tira tudo da gaveta, olha peça por peça e coloca cada coisa no seu lugar.

Quando você entende de onde vem uma reação, ela passa a mandar menos em você. Aquela irritação que parecia surgir do nada ganha uma origem, e o que tem origem dá para cuidar. É um exercício precioso e raro, porque quase nada na rotina pede que a gente pare para organizar o que está aqui dentro.

Por que às vezes incomoda?

Porque esculpir tira lasca. Conta-se que perguntaram a Michelangelo como ele tinha feito o Davi. A resposta: a estátua já estava dentro do mármore, e o trabalho dele foi só tirar o que sobrava. Pode ser lenda, mas a ideia é bonita e serve bem aqui. Na terapia, você continua sendo você, e o trabalho é ir tirando aos poucos o excesso que esconde quem já está aí.

E tirar excesso dá trabalho. Tem sessão em que você sai mais leve e tem sessão em que sai mexido, pensando naquilo a semana inteira. Isso costuma ser sinal de que alguma lasca saiu do lugar.

Sócrates dizia que uma vida sem exame não vale a pena ser vivida. Talvez ele exagerasse um pouco, mas dá para concordar com a parte boa: a gente vive melhor quando, de vez em quando, para e se olha com calma.

Então fica a pergunta para você levar. Se você parasse hoje diante da sua própria estátua, sem pressa, que detalhe acha que veria pela primeira vez?

Para continuar se olhando com calma, separamos mais três leituras:

Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele amigo que jura que não precisa de terapia porque resolve tudo sozinho. E resolve mesmo, desabafando com você toda sexta-feira por três horas seguidas. Manda este artigo para ele. Talvez esteja na hora de dividir esse trabalho com um profissional.

Footnotes

  1. Vazire, S. (2010). Who knows what about a person? The self-other knowledge asymmetry (SOKA) model. Journal of Personality and Social Psychology, 98(2), 281-300. ↩ confira

  2. Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H. & Way, B. M. (2007). Putting feelings into words: affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, 18(5), 421-428. ↩ confira

  3. Smith, M. L. & Glass, G. V. (1977). Meta-analysis of psychotherapy outcome studies. American Psychologist, 32(9), 752-760. ↩ confira

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