Por que somos inconstantes? O que o teste do marshmallow não contou

Somos inconstantes porque o cérebro foi moldado para dar mais valor ao que está na mão agora do que ao que pode vir depois. Planejar, esperar e imaginar o futuro dá trabalho, e ele só topa esse trabalho quando acredita que a recompensa vai mesmo chegar. E é aí que mora a parte que pouca gente conta: para esperar, a gente precisa confiar em quem fez a promessa, mesmo quando essa pessoa somos nós.
Quase todo mundo conhece o ciclo. A academia começa na segunda, o curso no dia 1, a dieta depois do feriado. Nas primeiras semanas vai tudo bem. Depois vem um dia corrido, um cansaço, uma desculpa boa, e quando você percebe, já largou de novo.
O que é o teste do marshmallow?
Nos anos 1970, pesquisadores da Universidade Stanford fizeram um experimento que ficou famoso no mundo inteiro.1 Uma criança sentava diante de um doce, como um marshmallow, e recebia uma proposta simples: podia comer agora, ou esperar o adulto voltar e ganhar dois.
Algumas comiam em segundos. Outras cantavam, tapavam os olhos, viravam a cadeira, faziam de tudo para aguentar. Anos depois, o experimento virou uma espécie de lição de vida: quem consegue esperar se dá melhor, e quem não consegue tem um defeito de fábrica.
Só que essa versão ficou incompleta.
A parte do experimento que ninguém conta
Em 2013, um grupo de pesquisadores resolveu mexer num detalhe.2 Antes do marshmallow, cada criança recebeu materiais para desenhar e ouviu do adulto que, se esperasse, ganharia materiais melhores. Para metade das crianças, o adulto voltou com o que prometeu. Para a outra metade, voltou de mãos vazias e só pediu desculpas.
Depois veio o teste do doce. As crianças que tinham visto a promessa ser cumprida esperaram, em média, quatro vezes mais do que as outras. A diferença não estava na força de vontade delas, e sim no que tinham acabado de aprender sobre aquele adulto.
Faz todo o sentido. Se o adulto já furou com você uma vez, comer o marshmallow agora é a escolha mais inteligente. Um doce garantido vale mais que dois imaginários.
Anos depois, outro estudo refez a pesquisa com muito mais crianças, de origens mais variadas, e encontrou um efeito bem menor do que se dizia.3 Boa parte daquilo que parecia “força de vontade” tinha a ver com o ambiente em que a criança crescia: se as promessas ao redor costumavam ser cumpridas, se havia comida amanhã, se valia a pena esperar.
Por que o cérebro prefere o agora?
Por muito tempo, sobreviver era resolver o hoje. Comida disponível era para comer naquele momento, porque o amanhã era incerto. O cérebro que herdamos foi moldado nesse mundo, e por isso a recompensa imediata pesa tanto. Ela é concreta e já está na mesa. O futuro, por outro lado, é uma ideia que precisa ser construída na cabeça, e isso custa energia.
É por isso que o celular ganha da tarefa, e o sofá ganha do treino. Já falamos disso quando explicamos a armadilha da recompensa rápida. Ninguém é preguiçoso por escolher o que o cérebro foi programado para escolher. Mas dá para ensinar a ele outra coisa.
Você confia em você?
Agora volte ao experimento e troque os papéis. Em boa parte das nossas metas, o adulto que faz a promessa e a criança que precisa esperar são a mesma pessoa.
Cada vez que você diz “começo segunda” e não começa, uma parte sua anota. Cada plano largado no meio é um adulto voltando de mãos vazias. Depois de algumas vezes, o seu cérebro aprende a mesma lição que as crianças aprenderam: essa pessoa não cumpre, então é melhor pegar o doce agora.
Visto assim, a inconstância parece menos um defeito de personalidade e mais uma desconfiança que foi se acumulando.
Como ser mais constante?
Se o problema é confiança, a saída é a mesma que funciona com qualquer pessoa: cumprir pequenas promessas, várias vezes, até que ela volte. Prometa a si algo menor do que você aguentaria, e cumpra. Dez minutos de leitura em vez de uma hora. Uma caminhada curta em vez do plano de treino perfeito. Cada promessa cumprida é um adulto voltando com os materiais na mão.
A outra parte é treinar o cérebro a enxergar o futuro. Pesquisas mostram que, quando a pessoa imagina com detalhes uma cena concreta do que vem pela frente, ela fica mais disposta a esperar por recompensas maiores.4 O futuro deixa de ser um borrão e passa a ter rosto, cheiro e lugar. Fica mais fácil abrir mão do doce de agora quando você consegue ver o segundo.
Dá trabalho, sim. Mas é o tipo de trabalho que vai ficando mais leve, porque a confiança cresce junto. Como resumiu o filósofo Will Durant, explicando Aristóteles, somos aquilo que fazemos repetidamente. As coisas grandes da vida costumam ser construídas em muitos dias de esforço comum, bem mais do que em um único dia heroico.
Então fica a pergunta para você levar. Se você fosse a criança na frente do marshmallow, e o adulto que prometeu o segundo doce fosse você mesmo, você esperaria?
Para continuar construindo essa confiança, separamos mais três leituras:
- Se você costuma esperar a vontade aparecer para começar, aqui mostramos por que a motivação chega depois da ação.
- Toda promessa adiada tem juros, e o tempo sempre cobra a conta de deixar para amanhã.
- Quando a gente larga muita coisa no meio, bate a impressão de que todo mundo já chegou lá, e falamos aqui da sensação de estar atrasado na vida.
Comentário do Editor: Todo mundo tem aquele amigo que começa a dieta toda segunda-feira desde 2019, e que já conhece pelo nome todos os personal trainers do bairro. Manda este artigo para ele. Talvez ele só precise começar com um marshmallow de cada vez.
Footnotes
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Mischel, W., Ebbesen, E. B. & Zeiss, A. R. (1972). Cognitive and attentional mechanisms in delay of gratification. Journal of Personality and Social Psychology, 21(2), 204-218. ↩ confira
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Kidd, C., Palmeri, H. & Aslin, R. N. (2013). Rational snacking: young children’s decision-making on the marshmallow task is moderated by beliefs about environmental reliability. Cognition, 126(1), 109-114. ↩ confira
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Watts, T. W., Duncan, G. J. & Quan, H. (2018). Revisiting the marshmallow test: a conceptual replication investigating links between early delay of gratification and later outcomes. Psychological Science, 29(7), 1159-1177. ↩ confira
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Peters, J. & Büchel, C. (2010). Episodic future thinking reduces reward delay discounting through an enhancement of prefrontal-mediotemporal interactions. Neuron, 66(1), 138-148. ↩ confira
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